Salvando as minhas circunstâncias

Na minha vida até então, duas coisas sempre foram presentes: a falta de foco e o tempo livre. Nunca tive aquele foco, aquela paixão e obstinação por um tema que faz a pessoa ser reconhecida e lembrada por aquilo assim como, por nunca ter tido essa obstinação no meu trabalho, sempre encontrei tempo livre pra buscar e conhecer coisas novas. E essa dispersão que sempre me pareceu uma desvantagem, agora começo a perceber seus benefícios.

Com os ensinamentos do Olavo de Carvalho comecei a aceitar minhas circunstâncias, como disse Jose Ortega y Gasset, “eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim.” Aceitar suas circunstâncias e “salvá-la” é uma síntese da nossa missão nesse mundo. E ao tomar pra si essa responsabilidade, desenvolver as habilidades necessárias para melhorar nossa condição e dos que nos cercam e trabalhar diligentemente, vamos crescendo em força e em sensibilidade.

Por exemplo, devido a diversas circunstâncias, me vi obrigado a fazer o almoço da minha família todos os dias. Comprar comida todos os dias seria apenas por preguiça, já que eu sabia cozinhar um pouco e tinha tempo. Eu precisava ter a disciplina de comprar ingredientes, pensar nos cardápios e parar de trabalhar mais cedo para ir para a cozinha, entre 10:30hs e 11:00hs. E o mais difícil era ter a humildade de, sendo homem e profissional formado e pós-graduado, ir para a cozinha enquanto todos os meus colegas e vizinhos estão trabalhando.

Ao ir para a cozinha eu alternava sensações de angústia e tranquilidade, tristeza e alegria, insatisfação e satisfação. Mas aos poucos fui ficando mais habilidoso na cozinha e fazendo o almoço e menos tempo. Os 80 minutos que eu “perdia” todos os dias preparando o almoço, foram reduzindo pra 70, 60, 50. A angústia de que “eu devia estar trabalhando” foi diminuindo e recompensada com o prazer de estar em casa com meus filhos, melhorando minhas habilidades na cozinha, ouvindo músicas ou podcasts. Ao viver a vida de uma dona de casa ou cozinheira um período todos os dias, fui compreendendo melhor esse universo, seus desafios, tristezas, alegrias, decepções e satisfações. Por ser um pouco dona de casa e cozinheira as vejo como iguais a mim, converso com minha diarista no mesmo tom, sem superioridade nem falsa humildade.

Como eu disse, tomei para mim a responsabilidade que caiu no meu colo, desenvolvi as habilidade necessárias, pus a mão na massa e cresci em força e sensibilidade. Não sem angústia e sofrimento, mas sempre melhorando. Hoje levo uma média de 40 minutos pra preparar tudo. Estou começando a adiantar umas coisas na noite anterior e tenho a meta de preparar e requentar tudo em 25 minutos, um tempo não muito diferente de quem tem que sair do trabalho e ir para um self-service, o que ajuda muito na sensação de que se está perdendo tempo de trabalho.

Assim, tudo que vejo que tenho a capacidade e tempo para fazer, vou fazendo. De sites de internet a jardinagem, de reparos na casa e no carro a cuidados com os filhos, faço de tudo. E vejo que ao invés de me sentir disperso e frustrado, vou me sentindo cada vez mais forte mentalmente, habilidoso e sensível às pessoas. Um dia eu chego lá!

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