Estudar para Ser Alguém ou Ser Alguém para Estudar?

Por Roger Brys Volz

 

A idéia de se formar num curso superior me acompanhou até a formatura da minha engenharia. Eu sempre fui educado para chegar a me formar na faculdade. Fui o primeiro da minha família a ter curso superior. Meu pai veio de uma família de feirantes. Minha mãe de taxista. Minha mãe foi educada a ser a dona de casa perfeita. E foi. Meu pai foi o filho que venceu na vida. Se formou a muito custo em técnico mecânico curso profissionalizante de segundo grau. Curso excelente, numa das melhores escolas do sul do país. Com muito esforço passou num concurso numa estatal de energia e foi trabalhar em usinas hidrelétricas. Saiu de casa para ganhar o mundo e construir um família.

 

O que eu consigo ver no meu pai é que ele não se conformava com a situação vigente no seu meio e foi contra aqueles clichês. Venceu na vida trabalhando numa profissão técnica que hoje está escassa. Governo após governo foi relegando estas profissões, deixando de lado, colocando empecilhos para formar trabalhadores, aumentando o tempo de estudo desnecessariamente. Aos poucos estão voltando. Aos poucos, mas sem a força que já tiveram.

 

Meu pai venceu assim, estudando e seguindo as oportunidades que a vida apresentou a ele neste caminho. Venceu barreiras dentro de casa, fora, para ser alguém na vida. Venceu estudando e foi isso que ele me ensinou. Se ele chegou a técnico, terminar a faculdade sim é que seria uma meta boa para ser alguém. Olho pra trás hoje e penso nessa afirmativa que tanto escutei de meu pai.

 

Quando me perguntam o que eu sou a resposta imediata, pronta, que sai na ponta da língua é: “sou engenheiro”. É um orgulho dizer. “sou engenheiro civil”. Mas também paro pra pensar no que é fazer engenharia. O que é passar 5 anos estudando 95% de matérias que hoje não uso para NADA. Você pode até me dizer que ajudou a “montar meu pensamento”, que a base está no subconsciente, mas o certo é que as matérias me ensinaram eu não precisava pra trabalhar. Foi assim. Olho pra trás e me dou conta que caí no mundo, formado, com um título de engenharia civil em mãos e sem saber trabalhar. É de matar.

 

Você, recém formado, consegue um emprego com um professor que já conhecia seus feitos técnicos. Isto é bom, até que não foi tão difícil. O histórico escolar ajudou muito mas nos primeiros momentos de empregado a vida começa a te dar um baile. Te enche de perguntas que se você parar pra pensar enlouquece:

 

– Como lidar com o colega arrogante ao lado? Na faculdade saía na porrada, cortava laços, mas e agora?

– Se eu quisesse dar uma proposta para um cliente, para fazer o que o meu chefe está me mandando fazer agora, como faria?

– Posso fazer isto assim ou é contra a lei?

– Como se faz um empréstimo pra montar uma firmazinha?

– Usar software pirata pode? Vou ser pego?

– Porra, eu só uso excel no trabalho e ninguém nunca me ensinou em 5 anos de faculdade? Vou ter que aprender sozinho…

 

Estas perguntas levanto só pra começar. Os anos passam e você se depara com situações que no decorrer da carreira são um tanto complicadas.

 

– Você precisa trabalhar.

– O emprego é pra comandar uma obra sozinho.

– Você é o único que não tem registro em carteira.

 

Puts, e agora? Aceito ou não este emprego? E se não aceitar vou conseguir pagar minhas contas? Posso abrir uma empresa e emitir nota fiscal? Como faço? Posso sugerir ao meu chefe? Como gerencio pessoas? Quais os processos utilizo pra registrar, acompanhar,fazer uma obra andar? Caralho, porque ninguém ensinou nada disto durante 5 anos de faculdade?

 

É muita pergunta sem resposta, muito tempo gasto lendo livros, aprendendo técnicas escritas em apostilas que os professores dos meus professores ministravam 30 anos atrás. Mas e o que preciso pra trabalhar? Ler um livrou ou apostila, após ter a base, qualquer um faz. E APRENDE. Fácil, aprende as quatro operações, sabe lidar com frações, fazer uma ou outra equação e pronto. Pode ler os livros técnicos que você aprende. Ensino técnico é difícil, mas é fácil. Livro ensina.

 

O que ninguém aprende do dia pra noite é como se comportar bem numa reunião, como se relacionar com um cliente inapropriado ou falar português corretamente. Aquilo que vem do berço não se ensina do dia pra noite, mas é o mais difícil de se aprender. Aguentar um chefe ignorante, que chega bêbado pra te dar ordens é difícil e ninguém te ensina. Você sai no braço com ele? Abaixa a cabeça e fica quieto? Não fica quieto e bate de frente? Grita, xinga pede demissão? Mas e teu aluguel no fim do mês pra pagar? E se tiver filho então, como faz? A vida é muito mais que aprender a fazer planilhas e cálculos mirabolantes. Estes serviços fazemos no conforto de nossa mesa, em frente ao computador, muitas vezes usando não mais que 1 hora no dia. E nas outras 23h o que somos? Como nos comportamos?

 

Hoje uso para trabalhar muito mais o que aprendi sozinho do que aquilo que aprendi na faculdade. Se a profissão não fosse regulamentada não seria necessário fazer o curso de engenharia, ter o título, para exercer o que exerço, fazer o que faço. Minha faculdade são os livros que carrego comigo, os arquivos que não apago e tenho cópia em todo canto. Isto é o que sou profissionalmente, não a caixa que a faculdade tentou me impor. Sou o que sou, mas meu pai estava certo. Preciso me formar numa faculdade para ser alguém. Preciso me formar numa faculdade para lidar com a burocracia do governo, com a reserva de mercado instituída e que só arrasta o povo para a informalidade. Para sermos alguém num país socialista só mesmo ajudando a manter a máquina inchada, funcionando. Tendo título para “facilitar” a vida. Para ser alguém num país livre não precisaria ficar preso a títulos ou registros em conselhos de classe. Num país assim, trabalharia mais, para mais pessoas fornecendo meu serviço e não meu título. Neste país meu pai me orientaria a desenvolver minhas habilidades, a ser quem posso ser e não a caixinha que a faculdade me impõe.

 

A verdade é que a faculdade pode bloquear a época mais criativa e enérgica que temos. A época que a noite vira dia e conseguimos trabalhar alucinados enquanto a cabeça funciona. Não são 8h, carteira assinada que nos barram. O que nos barra é só o desafio. Enquanto isso na faculdade você se sustenta nos seus amigos que sofrem como você. Eles são a razão de passar por estes 5 anos doloridos. Igual a uma gerra, passamos pelo que passamos pelos nossos pares.

 

Agradeço ao meu pai por tudo que me ensinou mas o mais importante não foi “estudar para ser alguém”. A faculdade me ajuda, claro que ajuda, mas não foi isso. Sou o que sou porque fui ensinado pelo meu pai a “ser alguém e estudar”. A SER ALGUÉM E ESTUDAR. É isso que levo e isto me basta. Da faculdade, lembranças dos meus amigos e só.

 

Obrigado pai.

 

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